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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

CAPÍTULO 135

CENA 1: Cláudio começa a chorar e Bruno se assusta.
-O que foi, amor? Nunca te vi acordar desse jeito. Foi pesadelo?
-Foi, Bruno... e foi horrível. Nunca me aliviei tanto de me acordar e te ver aqui, ao meu lado.
-Quer falar sobre isso? Talvez te faça bem.
-Não sei se vai valer a pena, não sei se vai te fazer bem falar sobre o que eu vi no pesadelo.
-Mas se foi um pesadelo, não era real. Desabafa, amor... sou eu, o seu Bruno... não estou aqui pra me negar a te ouvir.
-O Guilherme aparecia no teatro, eu tava de volta completamente já, atuando numa peça que nem existe. Ele colocava fogo lá... ele era o próprio fogo, de certa forma. Parecia uma coisa demoníaca... e foi muito assustador.
-Calma, Cláudio... você deve ter ficado impressionado.
-Mas impressionado com o que, se ele simplesmente nem está mais incomodando e provavelmente tá até fora do país?
-É justamente por isso, amor... você falou sobre ele com o Valentim, depois conversou com a gente sobre isso.
-Deve ser coisa do insconsciente, então...
-Claro que é, seu bobo. De onde mais poderia vir esse pesadelo bizarro?
-Sei lá, né...
-Você acha que poderia ser alguma espécie de presságio? Faça-me o favor, Cláudio... não tem nem sentido uma coisa dessas.
-Mas podia ser sim, por que não?
-Porque você acabou de dizer que ele era o próprio fogo. Não percebe a situação fantasiosa desse pesadelo?
-É... olhando por esse lado... mas vai que tem algum fundo espiritual nisso?
-Pode ser que tenha, mas raciocina comigo, Cláudio: um dia você fica sabendo que provavelmente ele fugiu pra longe e que isso garante paz e tranquilidade a todos nós, principalmente a você... no outro dia você tem esse pesadelo. É só juntar as coisas, sabe? O estudante de psicologia aqui era você, não eu.
-É, mas mesmo assim tudo isso foi realmente assustador.
-Compreensível que tenha te abalado. Afinal de contas, Guilherme já fez muita merda com as nossas vidas. Mas procura se tranquilizar agora, amor...
-Eu vou tentar ficar tranquilo. Preciso me convencer de uma vez por todas que nada disso significa nada de ruim.
-Até que enfim, amor... não quero te ver perder a tranquilidade por causa de um pesadelo besta.
-Besta ou não, tou virado na Tulla Luana e me tremendo todo até agora.
-Quer um chá? Eu faço pra você.
-Cê tá bem doido que eu vou deixar você ir sozinho até a cozinha quando você ainda precisa terminar de se recuperar da cirurgia, né? Eu aceito o chá sim, mas a gente desce junto. Talvez tomando esse chá eu sinta sono de novo, porque nesse momento eu perdi completamente o sono e dá até medo de dormir de novo e aparecer aquelas coisas horrorosas outra vez.
-Relaxa, amor... tenta não pensar mais nisso. A gente vai escolher um chá bom e você vai ficar tranquilo.
-Espero mesmo me tranquilizar.
Os dois descem para preparar o chá de Cláudio.
CORTA A CENA.

CENA 2: No dia seguinte, Suzanne surpreende Valentim procurando-o em seu consultório.
-Você aqui? Definitivamente, a última pessoa que eu esperava ver na minha frente era você, Suzanne.
-Nós precisamos ter uma conversa séria e ela não pode ser adiada, Valentim.
-Sei. E do que se trata, Suzanne?
-Eu preciso que o inquérito contra mim seja arquivado.
-Você tá maluca, Suzanne? Isso é impossível. Você é suspeita de uma série de crimes e quem decide se o inquérito vai ou não ter continuidade é a polícia. Não posso fazer nada.
-Valentim, eu sei que você tem influência, eu sei que você pode. Vai ser melhor pra todo mundo se esse inquérito parar agora.
-O que você tá querendo dizer, Suzanne?
-Que nada de concreto pode ser provado contra mim. Manter esse inquérito aberto só prejudica meu direito de ir e vir e não vai dar em nada, escute o que estou te dizendo. Nada vai ser encontrado porque eu não cometi os crimes dos quais sou acusada.
-É o que todo culpado diz, Suzanne: “sou inocente”. Mas você percebe que nada disso não é suficiente pra que um inquérito seja arquivado? Me surpreende você se abalar de sua casa até aqui pra me falar essas coisas... pensei que fosse mais inteligente.
-Inteligente eu sou, Valentim. Acontece que tem coisas que eu não posso dizer. Tem gente grande que pode ferrar com a minha vida e com a vida de mais gente.
-Por um acaso se refere ao Guilherme?
-Que? Tá maluco, cara? Claro que não!
-Sei. E por que essa indignação por uma simples pergunta?
-Valentim, pela última vez eu vou te explicar: o único crime que eu cometi foi ter matado o meu pai e eu tinha doze anos. Não posso mais pagar por esse crime e isso é tudo.
-De qualquer forma, pesam sobre você as suspeitas de que seu dinheiro seja ilícito, você tem sorte de não ter tido nada disso comprovado.
-Menos mal, pelo menos minhas contas não estão mais bloqueadas.
-Mas esse jogo não acabou, Suzanne. Assim que forem reunidas as provas necessárias contra você, você pode acabar presa. E você sabe disso. É disso que você tem medo, não é? De não ser mais livre... de perder a capacidade de enganar as pessoas. Dificultaria a sua vida de golpista.
-Você não sabe da missa um terço, Valentim. A vida é feita de escolhas e nem sempre temos como escolher o melhor caminho. Pra você é fácil apontar o dedo, não é? Sempre foi filhinho de papai, teve os estudos bancados em universidade privada... cresceu na carreira como investigador e psiquiatra porque sempre teve muito dinheiro. No dia que você se colocar de verdade no lugar das pessoas que não nasceram com esses privilégios, talvez eu te explique alguma coisa. Você se acha muito grande, né? Muito acima do bem e do mal, o mais nobre dos nobres. Você não passa de um vaidoso, de um pretensioso, que pensa que conhece a natureza humana, mas nunca saiu dessa sua bolha.
-Que seja. E o que é que você espera que eu faça? Se acha que vou me sentir insultado com esse seu discurso inflamado e rancoroso, se engana. É assim que você espera conseguir as coisas, pra que o seu inquérito seja encerrado? Esperava mais da sua inteligência, Suzanne.
-Você não faz ideia dos riscos que todo mundo pode correr se essa investigação for longe. Não faz a mínima ideia.
-Isso é uma ameaça? Sua mãe vai gostar de saber disso...
-Não é uma ameaça. Não preciso disso, Valentim. Eu também corro risco.
-Se você pelo menos puder explicar o que é que tá acontecendo, já vai ser melhor pro seu lado. Quem sabe assim dá pra aliviar um pouco com a polícia...
-Qual é a garantia que eu tenho que contando alguma coisa eu vou permanecer livre? Você não sabe das coisas que eu tive de fazer.
-O seu discurso de súbita vítima não me convence, Suzanne. Faça um favor: retire-se. Estou em horário de trabalho e minha primeira paciente vai chegar em poucos minutos. Esqueça esse assunto. Finja que nem esteve aqui. O seu inquérito não vai ser fechado.
Suzanne sai frustrada. CORTA A CENA.

CENA 3: Haroldo vai acompanhado de Laura e Mateus à mansão dos Bittencourt e é recebido alegremente por todos.
-Laura, minha amiga! Que saudade! - fala Cláudio, abraçando Laura.
-Andamos nessa correria, em falta com todo mundo, mas se for pra marcar presença, então que venha todo mundo junto! - fala Haroldo.
Ivan nota que o filho está empolgado.
-Que alegria é essa, meu filho? - fala Ivan.
-Acho melhor darem logo a notícia... - fala Mateus.
-Sabe o que é, seu Ivan? Você vai ser avô de um menino e nós já confirmamos isso! - fala Laura.
-Meu Deus! Que maravilha! Já escolheram um nome pro meu neto? - fala Ivan.
-Quer dizer então que eu vou ser tia de um menino. Continuo sendo uma das únicas mulheres dessa família... - fala Mariana.
-Ah, sim... só você, a diferentona, a barroca rococó, a escolhida... - brinca Rafael.
-Então, seu Ivan... eu conversei com os meninos e a gente decidiu só dar o nome bem mais pra frente... - fala Laura.
-Conhecendo essa daí como conheço, é bem capaz dela escolher o nome só quando olhar pra cara do bebê recém-nascido. - fala Mateus.
-Independente de qualquer coisa, é bom demais saber que um menininho vai estar na nossa família a partir de agora... - derrete-se Ivan.
-Ei, quero nem saber. Sou avó torta desse bebê e não aceito ser chamada de outra forma senão de vó! - fala Marion.
-Óbvio. Você sempre foi a mãe que eu não tive. Nem lembro da minha mãe biológica. Depois, quem é que segurava a bronca de quando eu fugia de casa pra jogar? - fala Haroldo.
-Ainda bem que você se livrou desse vício a tempo, filho... - fala Ivan.
Todos seguem conversando animados. CORTA A CENA.

CENA 4: Horas depois, Márcio visita Cláudio e Marcelo na mansão, sendo bem recebido por Riva e Vicente.
-Que bom que você veio, meu amigo. Já estava com saudades... - fala Riva.
-É... até eu tava sentindo falta desse seu alto astral... - fala Vicente.
-Adoraria passar mais tempo conversando com vocês, mas vocês devem imaginar que eu vim ver meus filhos, né? - fala Márcio.
-Claro, querido. Vou chamar os meninos... - fala Riva.
Cláudio e Marcelo vão à sala e abraçam Márcio.
-Saudade de você, pai. Naquele dia que a dona velha veio aqui, a gente mal falou sobre essa loucura de eu ter me mudado de mala e cuia pra cá... - fala Cláudio.
-Verdade, meu filho. Mas pelo visto você e seu noivo já se adaptaram bem, né? E os pais dele, como estão? Gosto muito deles... - fala Márcio.
-Estão ótimos, mas sabe como é... seu Setembrino não deixa a dona Vânia fazer nada e ficam os dois enfiados no quarto enquanto ela se recupera do transplante... - fala Cláudio.
-Eu andei conversando uma coisa com a mãe e com o pessoal aqui em casa. Inclusive o Cláudio super concordou com essa minha ideia e ninguém se opôs. - fala Marcelo.
-O que, filho? - pergunta Márcio.
-Você pode vir morar aqui com a gente, não pode? Afinal de contas a edícula tá lá, esperando pra ser ocupada... - fala Marcelo.
-Ah... será? Não vou ser incômodo? - preocupa-se Márcio.
-Claro que não vai, pai! Depois, essa mansão aqui já tá praticamente virada numa pensão de luxo... - descontrai Cláudio.
-Bem, se são os meus filhos que estão pedindo... eu aceito! - fala Márcio.
CORTA A CENA.

CENA 5: Horas depois, já pela noite, Márcio aguarda a chegada de Raquel, já de malas prontas para partir.
-Ué, que malas são essas, querido?
-Eu nem sei por onde começar a dizer, mãezinha, mas... eu tou me mudando pra mansão... a convite dos meus filhos, entende? Espero que você compreenda...
-Claro que eu compreendo, meu querido... é a sua família. Um deles ainda por cima é meu neto...
-Vocês precisam se conhecer logo, por falar nisso. Mas eu só tava esperando você chegar pra me despedir. Vou sentir sua falta.
-Eu também, meu querido... mas a gente não vai deixar de se ver e ninguém aqui morreu. Boa sorte nessa nova moradia...
Os dois se abraçam e Márcio entra num táxi, com suas malas. Raquel vai ao seu quarto e se sente só.
-É, minha mãe... agora somos só eu e você, mais uma vez. Quanta saudade eu sinto de você, mamãe... que falta a senhora me faz nesses tempos de solidão... - lamenta Raquel.
Raquel segue a lembrar do seu passado.
-Ah, mamãe... se a senhora tivesse vivido o suficiente pra ver tudo o que eu consegui agora... aposto que se orgulharia. Preciso levar flores no seu túmulo, faz tempo que não te visito...
Raquel lembra com carinho de sua falecida mãe.
CORTA A CENA.

CENA 6: Vicente conversa com Riva sobre seus planos de lançamento nas redes da produtora.
-Quer dizer que você tá pensando em fazer isso logo semana que vem, Vicente? Não acha meio precipitado? Fica parecendo que a Fermata Visual tá sendo lançada nas coxas, isso sim...
-Não acho, querida. Pensa comigo: com o material que nós já temos, já é uma divulgação e tanto. Só falta editar os vídeos de uma maneira aceitável, ver se tem algum problema no áudio, consertar o que for preciso e colocar esses vídeos no ar. Lembrando que também gravei meus próprios vídeos esmiuçando todo o nosso processo criativo, desde a idealização da produtora até sua realização. Isso me leva a crer que pode gerar uma identificação com o público que for assistir... pode dar uma sensação de proximidade, sabe?
-Você tá certo, amor... mas eu fico pensando em como as coisas vão ser depois desse lançamento oficial. A internet é grande, mas também pode gerar concorrência... ou mesmo fazer com que os grandes empresários das emissoras de TV se revoltem com esse novo formato e façam alguma coisa pra boicotar.
-Isso é previsível. Não espero que sejamos recebidos com flores e ursinhos carinhosos pelos velhos empresários. Pra mim é claro que vai acontecer isso em algum momento, mas se já estiver preparado pra isso, vai ser menor o dano.
-Outra dúvida que eu tenho é sobre o prazo que a gente vai acabar estipulando pras próximas produções.
-Já conversei com o Rafael sobre a ideia de juntar o roteiro dele com esses personagens que criei.
-E o que ele achou da ideia?
-Adorou. Está realmente disposto a costurar as tramas.
-Espero que consiga, se bem que com a ajuda do meu filho, é bem capaz que ele consiga isso. Não é querendo lamber minha cria, mas já lambendo: o Marcelo não entra em nada se não for pra dar muito certo. Ele mergulha fundo, pesquisa até a origem do universo se for preciso.
-É justamente por isso que fico confiante. No final das contas, nossas produções vão sair do papel muito antes do que imaginávamos...
CORTA A CENA.

CENA 7: Antes de dormir, Mara conversa com Valentim sobre possível fuga de Guilherme para outro país.
-Digamos que o Guilherme realmente tenha fugido pra outro país com uma identidade falsa, Valentim... se ele conseguiu sair sem ser preso, ele pode também voltar a qualquer momento.
-Não acredito que ele se arriscaria tão cedo. Não enquanto ele estiver certo de que vai ser preso assim que colocar os pés aqui no Brasil outra vez.
-Você está subestimando o Guilherme, Valentim... não deveria fazer isso.
-Quem disse que estou subestimando?
-Sua postura, amor... seu desdém diante dessa situação. Essa calmaria continua não sendo bom sinal.
-Eu tenho aprendido a te ouvir mais, Mara... realmente confio na sua intuição, mas dessa vez acho que é exagero.
-De que adianta me dizer que confia na minha percepção, intuição ou chame como quiser e logo depois dizer que estou exagerando? Percebe como você ainda não saiu dessa postura de macho que diminui tudo o que vem da mulher?
-Não é proposital, Mara...
-Então pense melhor antes de falar, caramba! Não quero discutir. Mas se eu fosse você, não subestimava Guilherme. Se ele fugiu com identidade falsa, em algum momento ele volta com essa mesma identidade falsa.
CORTA A CENA.

CENA 8: Na manhã do dia seguinte, Raquel sai mais cedo de casa e dirige até o cemitério onde sua mãe está sepultada. Com flores em suas mãos, Raquel ajeita as flores no túmulo de sua mãe.
-Espero que a senhora goste dessa flores, mamãe... se a senhora soubesse o quanto eu sinto falta do seu riso, da sua luz, do seu amor e do seu olhar sempre otimista sempre a dizer que tudo fica bem! Parece que posso te ouvir dizendo no meu ouvido: “se não está tudo bem, é porque ainda não acabou”. Você estava tão certa sobre isso, mamãe! Só depois de muito tempo entendi isso. Me tornei investigadora depois de achar que não tinha mais nada a fazer dessa vida... - fala Raquel, emocionada.
Raquel olha para o túmulo e continua a falar.
-Queria tanto uma certeza de que de algum lugar a senhora pode me ouvir...
Raquel deixa a última flor que tinha nas mãos sob o retrato de sua mãe. É revelado que a mãe de Raquel é a misteriosa senhora.
FIM DO CAPÍTULO 135.


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