CENA 1: Márcio tenta se
explicar com Raquel.
-Dona Raquel... eu não queria
que a Suzanne fizesse isso, mas você sabe como ela me obriga às
coisas.
Suzanne se impacienta.
-Cala a boca, imbecil! Você
não passa de um covarde!
Raquel sai em defesa de
Márcio.
-Covardia é o que você tá
tentando fazer, minha filha! Não foi você mesma que disse que nunca
mataria alguém? Causar um aborto é o que?
-Mãe, por favor. Não se mete
nesse assunto. Você não tinha nada que ficar escutando atrás da
porta...
-Mas eu ouvi, Suzanne! Isso é
grave, será que você não percebe isso?
-Grave é ficar sem dinheiro,
mãe. Já te falei, não se mete nisso.
-Como é que eu não vou me
meter? Eu estou no mesmo teto que você e ouvindo essas barbaridades.
Tenho que fingir que não escuto nada agora?
-Mãe, você veio pra cá
porque você quis. Por que não volta pra sua casinha lá em
Curicica?
-Você sabe que coloquei pra
alugar, Suzanne. Não se faça de desmemoriada. E que tanto você
precisa de dinheiro? A gente tá passando necessidade, tá passando
fome? Não! Você só pensa em ficar cada vez mais rica e sem
trabalhar de verdade pra isso! Seria mais digno que você vendesse
seu corpo, pelo menos assim não ia enganar ninguém, ia ser um
dinheiro honesto.
-Veja a que ponto chegamos,
dona Raquel. Minha própria mãe sugerindo que se eu fosse uma puta
eu teria uma vida mais digna que essa vida aqui. Você tá doida?
-Eu nunca estive tão sã,
Suzanne. Não há vergonha nenhuma na prostituição. Não vou entrar
no mérito da objetificação da mulher e dos cafetões que arrancam
dinheiro de tantas putas, se não fosse isso, ser prostituta
isoladamente não teria nada de problemático.
-Muito me surpreende você,
dona Raquel, uma senhora quase sexagenária, defendendo essas ideias.
Tudo isso é pra me atacar, pra me criticar?
-Suzanne, minha filha... nem
tudo é sobre você nessa vida. Você não percebe que está se
contradizendo? Outro dia você disse que não mataria ninguém nunca
nessa vida, agora tá querendo matar o filho ou filha da Riva!
-Cale a boca, mãe! Um feto de
poucas semanas não tem nem sistema nervoso central. De onde que isso
é vida?
-Você não pensa na dor que
isso pode causar pra aquela a quem você chama de amiga?
-Eu penso é no dinheiro que
eu vou perder se essa merendeira grosseirona tiver essa criança. É
nisso que eu penso.
-Você não tem coração,
Suzanne... não é possível.
-E você fala demais. Olha bem
aqui, dona Raquel: se eu fosse você eu ficava bem caladinha, bem
quietinha, porque não me custa nada te colocar pra fora e deixar
você na rua! Foda-se que a casa de Curicica tá alugada, você fez
isso porque quis. Você quer ir pra debaixo de uma ponte? Acho que
não. Então cala essa boca porque não vai ser a senhora que vai me
impedir de nada!
Raquel fica chocada e
humilhada com as palavras da filha. CORTA A CENA.
CENA 2: Na manhã do dia
seguinte, Cláudio surge cedo no apartamento de Laura e a surpreende.
-Cláudio? O que foi que te
deu pra quase madrugar e vir aqui?
-Ah, Laura... andei pensando
nas merdas que andei fazendo... enfim, posso entrar?
-Claro, querido! Você deu
sorte, viu? Justo hoje o Mateus começou a preparação de elenco pra
próxima novela. Foi chamado de última hora.
-Aliás... vocês ainda estão
dando um tempo?
-Sim, Cláudio. Preciso de um
pouco mais de tempo pra digerir a traição dele.
-Você ainda está brava
comigo?
-Cláudio... em momento nenhum
cheguei a sentir raiva de verdade de você. Você que se sentiu
agredido por eu ter apontado a você suas contradições. Acho que
agora você entende que todo mundo mente e às vezes a gente mente
pra proteger, né?
-Eu tou começando a
compreender isso... a duras penas. Tive uma conversa muito difícil
com o Marcelo esses dias...
-Não é pra menos. Eu sei que
você sabotou os vídeos de psicologia dele. Não te julgo por isso,
mas entendo que você deva assumir a responsabilidade por isso.
-Então a gente continua sendo
amigo?
-Claro que sim, seu bobo. Te
acompanho desde a infância. A gente cresceu junto. Confesso que me
comovi quando entendi que do seu jeito torto e desajeitado, você
quis me proteger. Aliás... acho que você devia reconsiderar o
término com o Bruno. Eu sinto que ele é o cara certo pra você...
-Então... eu não sei se um
dia a gente volta. Você sabe que nunca fui de voltar atrás nas
minhas decisões.
-Sei. Mas você já tem vinte
e um anos. Precisa mudar essa postura. Quem mais sofre com ela é
você.
-Só que eu tou ficando com o
Guilherme.
-O que? Com aquele Guilherme
que estudou com a gente? Como é que isso foi acontecer?
-Eu sei que é esquisito. A
gente passou anos sem se ver. Evitei ele quando ele deu piti. Mas ele
tem sido um bom amigo, dá pra crer?
-Sinceramente? Não dá. Não
vou com a cara dele. Nunca fui. Até hoje não engoli aquela história
ridícula que ele inventou com a Fernanda pra sala de aula inteira
testemunhar sua humilhação...
-As pessoas mudam, Laura. Ele
está outra pessoa.
-Quem sou eu pra me opor?
Ninguém. Tá te fazendo bem?
-Tá... de certa forma.
-É o que importa.
-Mas você não gosta dele, dá
pra ver isso.
-Não vou mentir... não gosto
mesmo. Mas vamos mudar de assunto porque isso quem decide é você...
Os dois seguem conversando.
CORTA A CENA.
CENA 3: Durante o café da
manhã, Diogo percebe que Victor está com uma expressão de quem
quer lhe dizer algo.
-Impressão minha ou você tá
querendo me dizer alguma coisa e não sabe como, Victor?
-Dá pra perceber, Diogo? Na
verdade eu não sei nem por onde começar. Você sabe que já fui
injusto com o Cláudio e não quero ser injusto com mais ninguém...
-Mas coloca isso pra fora,
amor. É importante pra você e pro seu tratamento não deixar nada
por dizer...
-Quer saber? Eu sei que pode
parecer uma besteira da minha cabeça, mas... eu não fui com a cara
do Guilherme. Senti uma coisa meio sinistra nele.
-Não foi só você, Victor...
-Não?
-Eu não consegui engolir
aquela pose de bom moço que ele ficou fazendo diante da gente. A
boca sorria, mas o olhar parecia querer mandar a gente embora a todo
momento, desde que a gente colocou o pé lá na casa do Cláudio...
-Achei que só eu tivesse
percebido isso, Diogo. Fico tranquilo que você também concorda
comigo.
-Deixa de bobeira, Victor.
Dessa vez ficou meio na cara.
-Fiquei com medo que você me
julgasse.
-Julgar, amor? Logo eu? Eu tou
acompanhando toda a sua evolução desde que começou o tratamento,
você acha mesmo que eu teria a capacidade de te julgar? Mesmo que eu
não concordasse e tivesse achado o Guilherme gente boa, isso não me
daria o direito de invalidar tua opinião sobre ele.
-É... mas já parou pra
pensar que a gente pode estar de implicância gratuita com o cara?
-Pensei nessa possibilidade. O
Cláudio parece feliz e confortável com a presença dele.
-Acho que é isso que importa,
não é?
-De fato, Victor... se esse
cara estiver fazendo bem pras pessoas com quem ele convive, é o que
interessa.
-Meu medo é que ele acabe
sendo ruim pros meninos. Eu gostei do Bruno. Mas também notei que
ele não se sente muito bem na presença do Guilherme.
-Isso deve ter mais relação
com o passado que ele teve com o Cláudio, não? Não podemos
esquecer que eles foram namorados...
-Isso é verdade...
-Mas vamos mudar o foco do
assunto. Me conta o que tá rolando de bom no tratamento...
Os dois seguem a conversar.
CORTA A CENA.
CENA 4: Em seu consultório,
Valentim aproveita o tempo livre para investigar informações
disponíveis sobre a família de Altamir, pai de Guilherme, que foi
assassinado.
-Sobre esse Altamir não tem
mais nada que se possa ser descoberto. E ele não está aqui nesse
mundo pra poder nos prestar esclarecimentos. O foco é no legado que
ele deixou.
Valentim resolve investigar a
vida de Guilherme.
-Será que vale a pena
investigar a vida desse menino, Valentim? - fala Mara, chegando de
surpresa.
-E por que não?
-Valentim, você é o
psiquiatra aqui, não eu. O menino não é esquizofrênico?
-É. Justamente por isso...
-Mas querido, esquizofrenia
não é quase sempre prejudicial pro próprio paciente?
-Sim, Mara... quase sempre são
inofensivos. Mas não vamos esquecer que durante surtos psicóticos a
coisa pode engrossar feio pra outras pessoas, dependendo do nível de
perda de contato com a realidade.
-Já vi que sou voto
vencido... - fala Mara, conformada.
-Tá vendo? Esse garoto é
fichado na polícia.
-Me fala mais sobre isso.
-Então, Mara. Ele foi detido
há algum tempo atrás. Lesão corporal. Respondeu ao processo em
liberdade depois que pagou fiança. Agrediu um transeunte na rua, no
que constam aqui nos autos, durante um surto psicótico, justamente.
-E o agredido, ficou bem?
-Sim. Teve alguns ossos da
face quebrados e quando soube da esquizofrenia do Guilherme, achou
melhor retirar a queixa. Só que ficou o registro nos sistemas.
-Entendi...
Os dois seguem investigando.
CORTA A CENA.
CENA 5: Eva e Renata se
preparam para ir ao teatro ensaiar.
-Achei que a dona Regina e o
seu Geraldo estariam em casa numa hora dessas.
-Tem dias que eles gostam de
dar passeios assim que o dia amanhece... - esclarece Eva.
-Hoje tem aquele evento à
noitinha. Não vai se esquecer...
-Eu sei, Renata. Dessa vez vai
ser diferente.
-Eu queria tanto acreditar
nisso, Eva...
-Eu prometo. Aliás, não
prometo... eu juro.
-Jura mesmo? Não tá cruzando
os dedos, não?
-Pode olhar minhas mãos...
não estou cruzando os dedos.
-Você jura que hoje vai ser
diferente?
-Não tenho motivos pra
mentir... andei pensando em tudo o que foi falado nos últimos dias e
não quero correr o risco de te perder mais uma vez. Você é o amor
da minha vida, a única certeza que eu tenho nessa vida.
-Você sabe que isso significa
me assumir diante de toda a imprensa, não sabe?
-Eu sei disso. Eu pago esse
preço. Posso sobreviver sem a minha carreira correndo do jeito que
eu sonhei. Mas não posso viver sem você.
As duas se beijam. CORTA A
CENA.
CENA 6: Horas depois, ao final
da tarde, Procópio percebe que Mara está sozinha no camarim do
teatro e a procura.
-Ai, que susto, Procópio!
Podia ao menos ter batido antes de entrar. E se eu estivesse com o
meu tablet investigando alguma coisa?
-Ei, Mara... sou eu. Não é
nenhum dos atores. Eu sei quem é você.
-Desculpe... eu realmente
fiquei assustada. Vem cá... não é meio cedo pra você estar aqui?
E os atores, onde estão?
-Foram fazer um lanche. Achei
estranho o Valentim não ter vindo hoje depois do horário de
trabalho dele no consultório.
-Ele tá muito focado nas
investigações do que está por trás da tal empresa fantasma que
misteriosamente não faliu.
-Entendi... isso significa
então que nós estamos a sós, é isso?
-Basicamente sim, Procópio.
Mas por que você tá querendo saber disso?
-Sabe, Mara... eu andei
pensando... nós fomos casados durante dezoito anos.
-Dezenove, você quer dizer.
-Isso... você sabe que nunca
fui muito bom com datas. Eu sinto falta do que a gente tinha, Mara.
Sempre nos demos tão bem.
-E continuamos nos dando bem,
não é? Afinal de contas, sempre fomos amigos antes de mais nada...
-Eu queria tentar de novo,
Mara. Eu gosto de você.
-Me desculpe, Procópio...
isso não tem como acontecer. Tenho muita estima e muito respeito por
você e não quero que você alimente falsas esperanças.
-Mas nós ficamos tantas vezes
depois do divórcio...
-Isso não tem mais como
acontecer.
-Por que?
-Não queria te dizer isso
desse jeito, meu amigo, mas... eu tenho alguém.
-Você tá namorando? Não
notei nada...
-Não estou namorando. Só
disse que tenho alguém. É tudo que você precisa saber.
-Desculpa qualquer coisa. Vou
voltar pro palco antes dos atores voltarem...
Procópio deixa o camarim
entristecido, mas conformado. CORTA A CENA.
CENA 7: Horas mais tarde, Eva
e Renata chegam ao evento onde há artistas e logo fotógrafos
percebem a presença de Eva. Um dos fotógrafos se aproxima dela e de
Renata.
-Eva Müller! Anda sumida da
TV desde aquela novela das seis, hein? - fala o fotógrafo.
-Coisas da vida, meu querido.
Como você se chama? - pergunta Eva, simpática com o fotógrafo que
a tratou com gentileza.
-Fabiano. Você e sua amiga
podem posar para mim? Sou da revista “Faces e Expressões”.
-Podemos sim, mas Renata não
é minha amiga, Fabiano. Ela é minha namorada, futura noiva e
esposa. - fala Eva, cheia de si.
-Não brinca? E você quer que
eu diga isso à redação da revista?
-Por favor, querido! Já
passei tanto tempo me escondendo que não faço mais a mínima
questão de posar de hetero numa altura dessas.
Renata vibra e abraça Eva
sorridente. As duas posam para a foto de Fabiano e ele segue pela
festa.
-Estou tão orgulhosa de você
que você nem imagina, Eva... hoje você me deu a prova que faltava.
E foi muito corajosa. Parabéns, amor...
As duas se beijam, sem se
importar com o burburinho da imprensa. CORTA A CENA.
CENA 8: Após o jantar na casa
de Cláudio, Guilherme impulsivamente fecha todas as janelas e
senta-se no sofá da sala com uma expressão lívida e trêmulo.
Bruno e Cláudio se assustam com a cena. Os dois vão até Guilherme.
-O que tá pegando, Guilherme?
- fala Bruno, preocupado.
-Eu vi... eu juro que vi! Eles
estão atrás de mim... - fala Guilherme, com o olhar vidrado.
-Você tá me deixando
assustado, Guilherme... eles quem? - pergunta Cláudio.
-Eles querem acabar comigo!
-Eles quem? - fala Cláudio,
perdendo a paciência.
-Os homens de preto... - fala
Guilherme, começando a se encolher.
-Bruno... busca um calmante
que tem no armário aéreo da cozinha. Guilherme precisa se acalmar.
Bruno vai, assustado, até a
cozinha e pega o calmante. Ele e Cláudio conseguem fazer Guilherme
tomar o calmante e levá-lo para o quarto de Cláudio. CORTA A CENA.
CENA 9: De volta à sala,
instantes depois, Bruno fala com Cláudio.
-Ainda bem que ele dormiu.
Fiquei assustado com aquela cena toda.
-Eu nunca pensei que ia ver o
Guilherme naquele estado... parecia estar delirando!
-E não é? Não sei o que a
gente fez ou falou pra deixar ele daquele jeito...
-Acho que não foi nada que a
gente tenha feito ou dito. Acho que ele teve uma crise nervosa. Ou
psicótica, sei lá. Será que ele tem algum transtorno grave e não
contou pra gente?
-Pode ser. Mas também pode
ser stress por alguma situação vivida recentemente... - conclui
Bruno.
-Só espero que ele fique
bem...
-Eu também espero, Cláudio.
Mas sinceramente? Olha... eu sei que ele tem as fragilidades dele e
hoje isso ficou evidente, mas de coração, eu queria te dizer uma
coisa que você pode achar chata: eu não confio nem um pouco nele...
Cláudio encara Bruno com
espanto. FIM DO CAPÍTULO 45.
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